Mais uma saída para caminhar, depois de alguns dias sem fazer, por motivos diversos, não dava mais para adiar, mesmo com o tempo nublado, não seria essa a desculpa. Iniciado o percurso de praxe, primeiro de casa até o parque e na sequência, dentro do parque, na área destinada para caminhadas. Logo na chegada ao parque, já tendo passado das dezoito horas, fui recebido por um arco-íris formado pelos últimos raios de Sol que insistiam em ficar, apesar da noite já querer seu lugar. Continuei caminhando, mas intrigado com o fenômeno ótico que geralmente se apresenta em horário mais para o dia do que para noite, olhando para várias direções, aproveitando o quão amplo o descampado do parque permite observar, vi formações de chuva e raios de um lado, a noite chegando de outro lado e também nuvens iluminadas com o fim do dia, exibindo uma paleta de cores e tons simplesmente encantadora. Logo me veio à ideia de registrar em foto ou vídeo, porém, eu havia deixado o celular em casa por estar quase sem bateria. No primeiro momento, confesso que lamentei não poder registrar, entretanto, ao mesmo tempo, me veio um sentimento de privilégio, de contemplação, afinal, eu poderia observar e vivenciar todo aquele momento e logo a frustração deu espaço à uma alegria indescritível e que não caberia no exíguo espaço de uma foto ou nos segundos de um vídeo. Poucos metros de caminhada depois, começa uma fina chuva e como eu já havia começado a caminhar e esse era o objetivo, continuei e concluí. Não apressei o passo, não corri, enfim, não fugi de ficar molhado, como já havia muito tempo que eu não ficava por minha própria opção. Aí, como eu sempre paro e penso, algumas vezes penso mais do que eu queria ou outras mais do preciso pensar, refleti sobre situações cotidianas e das nossas diuturnas ‘correrias’, nas quais muitas vezes incorremos em situações de querer controlar tudo que acontece e o universo mudar nosso norte e nos fazer recalcular a rota. Não registrar a foto me fez valorizar o momento efêmero que vivi em alguns minutos, ir de um pôr-do-Sol com paletas coloridas, se transformar em um começo de noite com chuva. Não registrei na foto, mas está guardado na minha memória, assim como outras tantas situações que vivi e estão aqui, no meu acervo de efetivo de memórias afetivas.
André Rocha